Um fim de semana no Porto em outubro
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Porque escolhemos outubro
Quase não fomos. O voo era barato — ridiculamente barato, uma dessas promoções de meio da semana que aparecem em outubro quando as multidões do verão se retiraram — mas tínhamos ouvido que o Porto era cinzento no outono. O que encontrámos foi algo mais rico: tardes quentes que não precisavam de protetor solar, noites frescas suficientes para uma jaqueta e um copo de qualquer coisa envelhecida, e uma cidade que parecia genuinamente habitada em vez de a fazer de conta para os turistas.
Tínhamos dois dias completos. Cometemos erros. Também tomámos decisões que repetiríamos sem hesitar. Este é o relato honesto.
Primeiro dia: chegada devagar
Aterrámos no Aeroporto Francisco Sá Carneiro às 11h, apanhámos a linha E do metro diretamente para o Bolhão — 35 minutos, cerca de 2,50 € — e fizemos o resto do caminho a pé até à nossa pensão perto de Cedofeita. Quando largámos as malas era meio-dia e a luz já estava a fazer algo extraordinário: um sol outonal baixo que toca a terracota e a pedra pálida do Porto num ângulo que simplesmente não existe em julho.
Não tínhamos plano para a manhã, por isso seguimos o instinto até ao Mercado do Bolhão. O mercado reabriu após renovação em 2022 e ainda tem o ar de pertencer às pessoas que lá trabalham — bancas de bacalhau, queijo da Serra, vinho local. Comprámos dois pastéis de nata num balcão do rés-do-chão (1,30 € cada, corretamente quentes) e comemo-los de pé como toda a gente.
O almoço chegou mais tarde do que o esperado. Descemos pelo Baixa em direção à Ribeira, resistindo à tentação dos restaurantes com menus laminados em vários idiomas mesmo à beira-rio. Em vez disso, virámos à esquerda por uma rua lateral estreita e encontrámos uma tasca com especiais escritos à mão num quadro — caldo verde, dourada grelhada, vinho local ao meio litro. Total para dois: 28 €. Isso tornou-se a regra para o resto da viagem: uma rua atrás de qualquer eixo turístico óbvio, sempre melhor e sempre mais barato.
Depois do almoço atravessámos a Ponte Dom Luís I a pé — o tabuleiro superior, reservado a peões e ao metro — e entrámos em Vila Nova de Gaia. Não tínhamos reservado visita a uma adega, o que em outubro se revelou estar bem. Entrámos na adega da Taylor’s no topo da colina e juntámo-nos a uma visita das 15h com outras oito pessoas.
Prova guiada na Taylor’s — reserve com antecedência no verão, walk-in geralmente possível em outubroA visita em si durou cerca de quarenta e cinco minutos — barricas, história, a vista sobre o rio a partir do terraço — seguida de dois vinhos: um tawny e um late bottled vintage. A vista do jardim da Taylor’s às 16h em outubro, com o sol a descer atrás do Porto, é algo que ainda penso. Hora dourada nas fachadas de azulejos do outro lado da água, o rio a ficar laranja lá em baixo, e mais ninguém no terraço.
Voltámos pelo tabuleiro inferior da ponte, tomámos uma cerveja num café na Ribeira (turístico, sim, mas era o momento certo para isso), e seguimos caminho pelo Miragaia acima enquanto os candeeiros de rua se acendiam.
Primeira noite: fado inesperado
Tínhamos planeado a meias encontrar uma casa de fado, mas não tínhamos a certeza se podíamos justificar o custo por cima do jantar. Por fim encontrámos um pequeno restaurante perto dos Clérigos que organizava uma sessão de fado informal — uma cantora e dois guitarristas que tocavam entre os pratos em vez de ser o evento principal. Sem entrada, sem consumo mínimo além da comida e do vinho. Ficámos duas horas e gastámos 38 € entre os dois. Ainda não sei bem se o que ouvimos era tradicional ou encenado, mas comoveu-me de qualquer forma.
Segundo dia: mais devagar e mais fundo
O segundo dia é sempre o melhor dia no Porto porque se para de tentar bater recordes de visitas e se começa a usar a cidade a sério. Tomámos espresso no nosso balcão habitual perto da pensão (0,80 €, o único preço correto), depois subimos à Torre dos Clérigos assim que abriu às 9h.
A Torre dos Clérigos é o tipo de coisa que recompensa chegar cedo: 220 degraus, estreito, verdadeiramente vertiginoso no topo — e em outubro, com uma ligeira brisa atlântica e visibilidade que chegava à costa, a vista valia cada degrau. Partilhámos o patamar com quatro outras pessoas. Às 10h, quando descemos, já havia fila.
Fomos de Clérigos à Livraria Lello. Tínhamos feito a pesquisa e comprado o bilhete de entrada Silver online na noite anterior — cerca de 8 € — o que significou que chegámos às 9h30 e entrámos diretamente, passando uma fila que já tinha vinte pessoas. O interior é genuinamente extraordinário: a escadaria, o teto pintado, o vitral. Passámos vinte minutos lá dentro e usámos o desconto do bilhete na compra de um livro pequeno.
Da Lello, caminhámos pelo Bonfim — a leste do centro, onde as ruas são mais tranquilas e os azulejos mais domésticos. Deparámos com um ateliê de cerâmica, um torrefator de café e um pequeno jardim onde homens mais velhos jogavam às cartas. Nenhuma infraestrutura turística. Este é o Porto que se perde quando se fica na Ribeira.
O almoço foi uma francesinha num sítio perto da Rua de Santa Catarina que vários locais tinham mencionado de forma independente. A francesinha chegou numa frigideira de ferro fundido, o molho ainda a borbulhar. Para os não iniciados: é uma sandes de carne de porco curada e bife, envolta em pão, coberta com queijo derretido, depois — o toque portuense — submersa num molho de tomate, cerveja e brandy (cada restaurante tem a receita proprietária e contestada) e servida com um ovo estrelado por cima e batatas fritas ao lado. Não é uma refeição ligeira. Custou 14 €. Não voltámos a comer até às 20h.
A tarde que correu bem
O Porto em luz de outubro aprecia-se melhor a partir dos miradouros a meio da tarde, quando o sol é baixo e as fachadas voltadas a oeste recebem a luz. Subimos ao Jardim das Virtudes, depois descemos pelo Miragaia até ao Farol de Felgueiras na Foz do Douro, onde o Douro encontra o Atlântico. Ficar naquelas rochas a ver as ondas com um café do café ali mesmo: foi o momento em que o Porto de outubro fez clique.
Tour a pé com guia local — especialmente útil se for a primeira visitaApanhámos o elétrico de volta a partir da Foz — o histórico elétrico 1, a tilintar ao longo do rio — e tivemos tempo para um último vinho do Porto num bar perto da Estação de São Bento antes do jantar.
O que faríamos de forma diferente
Reservar a visita à Taylor’s com antecedência de qualquer forma — mesmo em outubro, tivemos sorte com uma vaga de última hora e a sessão das 15h é popular. Também chegávamos um dia mais cedo: dois dias no Porto parece exatamente certo enquanto se está a fazê-lo, mas deixa-nos na manhã seguinte com vontade de mais um.
O preço do Porto em outubro foi dramaticamente mais baixo do que em julho. As nossas duas noites numa boa pensão central custaram 110 € no total. O total de dois dias incluindo os voos faria um orçamentista rigoroso ter calafrios, mas pareceu razoável tendo em conta o que vivemos.
Já estamos a olhar para os preços de outubro do próximo ano.
Notas práticas para um fim de semana em outubro
- Tempo: espere 18-22°C de dia, 12-14°C à noite. Leve uma jaqueta leve. Chuva é possível, mas outubro não é o mês mais chuvoso do Porto — esse é novembro.
- Multidões: dramaticamente mais baixas do que em junho-agosto. Miradouros acessíveis sem empurrar, reservas de restaurantes não essenciais na maioria dos sítios.
- Luz solar: os relógios mudam no final de outubro (Portugal segue o horário de verão europeu). Antes da mudança, o pôr do sol é por volta das 19h. Depois da mudança, cerca das 18h — planeie os miradouros para as 17h.
- Transporte: Cartão Andante para metro e autocarros cobre tudo o que precisa. Táxi/Uber para as noites.
- Reservas nas adegas de vinho do Porto: walk-in geralmente possível na maioria das adegas de Gaia em outubro, mas reserve na Graham’s e Taylor’s se tiver um horário específico em mente.
Consulte o nosso itinerário de 2 dias no Porto para uma versão mais estruturada do que descrevemos acima, e o nosso guia das melhores adegas de vinho do Porto em Gaia para rankings das adegas com preços atuais.
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