Porto durante o São João: o que ninguém conta
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A noite em que o Porto se torna completamente feral
Quero começar por ser honesto: não percebi bem o que era o São João antes de chegarmos. Tinha lido a descrição — «festival de rua importante, 23 a 24 de junho, a maior celebração do Porto» — e acenei com a cabeça como se soubesse o que isso significava. Não sabia. Nada do que tinha lido conseguiu transmitir o volume, o caos participativo, as sardinhas.
Chegámos ao Porto no dia 23 de junho por volta das 17h. A cidade já tinha aquela sensação de algo prestes a acontecer. Montavam-se barracas em todas as ruas principais a vender sardinhas grelhadas, martelos de plástico em cores néon, alhos-porros atados com fita e plantas de manjerico em pequenos vasos. As pessoas estavam a comprar os martelos. As crianças testavam-nos na cabeça dos pais. Ninguém se opunha.
Isto é o São João: a festa de São João Baptista, celebrada na noite do dia 23 com uma intensidade que transforma o Porto de uma cidade manejável numa festa ao ar livre para cerca de meio milhão de pessoas.
O que acontece na realidade
A tradição precisa de explicação porque vista de fora parece caos completo — o que é, mas há estrutura nesse caos.
Os martelos — aquelas coisas de plástico que piam quando se bate em alguém — servem para tocar na cabeça dos estranhos. Com afecto. Repetidamente. Compra-se um, entra-se na brincadeira, e durante doze horas ninguém se importa de ser batido na cabeça por um estranho porque toda a gente está a bater em toda a gente. À meia-noite do dia 23, todas as ruas da Ribeira, do Bonfim e da Baixa estão repletas de pessoas a piar martelos umas nas outras.
Os alhos-porros são a versão mais tradicional — bater nas pessoas com um molho de alhos-porros em vez disso, o que de alguma forma parece menos absurdo depois de sermos atacados com pios durante três horas. Os manjericos são presentes trocados entre casais e amigos com pequenos poemas atados.
E depois há as sardinhas. Em todo o lado, a noite toda: sardinhas frescas grelhadas no carvão em pequenos fogareiros portáteis que alinham cada rua, cada beco, cada passeio disponível. Compra-se uma sardinha num guardanapo (cerca de 2 a 3 €), come-se de pé com pão e repete-se a cada quarenta minutos durante o resto da noite. O cheiro a carvão e peixe paira sobre toda a cidade.
Como entrar realmente na festa
Cometemos o erro de passar a primeira hora numa esplanada na Ribeira, a apreciar as bebidas e a observar como antropólogos. Era a abordagem errada. Às 22h tínhamos comprado martelos (3 € cada numa barraca de rua), localizado a sardinheira mais próxima e começado a mover-nos com a multidão em vez de contra ela.
O movimento importa. O São João não é um festival para observar — é um que se atravessa, gradualmente, parando para sardinhas e vinho e ocasionais assaltos com pios, à deriva de rua em rua à medida que a música muda. Cada bairro tem um carácter diferente: a Ribeira está lotada e com muitos turistas à meia-noite, mas se se caminhar dez minutos para dentro do Cedofeita encontra-se a mesma festa com um sabor mais local.
Tour a pé pelos bairros do Porto — para conhecer a cidade antes do São JoãoAcabámos numa praça perto da torre dos Clérigos por volta da meia-noite, espremidos entre um sistema de som a tocar pop portuguesa dos anos 80 e uma família a grelhar sardinhas numa churrasqueira descartável. Uma avó ofereceu-nos vinho de uma garrafa sem rótulo. Aceitámos. Era muito bom.
As pontes às 2h
A certa altura, por volta da 1h30, há fogo-de-artifício a partir do rio. É quando a multidão migra em direcção à água, especificamente em direcção à Ponte Dom Luís I e ao cais da Ribeira. Fizemos esta migração com toda a gente, a seguir a deriva da multidão pelas ruas estreitas abaixo.
Do tabuleiro inferior da ponte, a olhar para leste, a cidade estava iluminada por detrás pelo fogo-de-artifício. Do tabuleiro superior via-se a multidão a encher cada centímetro do cais da Ribeira em baixo. O reflexo das luzes na água, o ruído a vir de todo o lado ao mesmo tempo — esta é a imagem que guardo dessa noite.
Ficámos até às 3h, o que pareceu um ponto de saída razoável. Havia muita gente ainda muito presente. As grelhas de sardinhas ainda fumegavam.
O que fizemos mal
Os sapatos. Usar ténis ou algo em que se possa caminhar seis horas em calçada numa multidão. Usei ténis brancos limpos e estavam significativamente menos limpos às 4h.
Também subestimámos o calor. Em finais de junho no Porto pode chegar aos 30 °C durante o dia e fica quente à tarde. A multidão gera o seu próprio calor. Um pequeno leque ou um frasco borrifador de água não é coisa embaraçosa de trazer.
Encontrar restaurante para jantar antes do festival começar foi mais difícil do que esperávamos — metade dos restaurantes da cidade estava a operar com serviço reduzido ou fechado para que o pessoal pudesse participar na festa. Acabámos a comer nas barracas de rua, o que foi honestamente a escolha certa de qualquer maneira.
Alojamento durante o São João
Reserve cedo. Muito cedo. O festival é um dos eventos mais visitados de Portugal e os hotéis no centro do Porto esgotam meses antes com preços significativamente inflacionados. Pagámos quase o dobro da tarifa de outubro na nossa pensão perto do Bolhão. Valeu — mas não é algo que voltaríamos a deixar para a última hora.
Se estiver a ver itinerários de 2 dias no Porto, construir um à volta do São João (chegada no dia 22, dia 23 na cidade, noite do festival 23-24) é a estrutura óptima.
A manhã seguinte
O Porto na manhã do dia 24 de junho é extraordinário de uma forma diferente. As ruas estão silenciosas — genuinamente silenciosas — cobertas dos restos da noite: guardanapos de sardinha, martelos partidos, fitas dos alhos-porros, algum fogo-de-artifício gasto. Os cafés que estão abertos servem café expresso aos sobreviventes. O Douro está liso e quieto.
Tivemos a cidade quase inteiramente para nós até ao meio-dia. Deambulamos pela Ribeira vazia, olhámos para o rio, comemos o melhor pastel de nata da viagem num sítio na Rua de Santa Catarina. A manhã pós-São João é por si só um pequeno presente.
Experiência gastronómica do Porto — boa para o dia a seguir ao São João quando se quer comer a sérioNotas práticas para o São João
- Quando: a noite de 23 de junho até às primeiras horas do dia 24 de junho
- Onde: toda a cidade, mas especialmente a Ribeira, os Aliados e as ruas perto dos Clérigos
- O que comprar: um martelo de plástico (3 a 4 € em qualquer barraca de rua), é equipamento de participação obrigatório
- Sardinhas: 2 a 3 € por sardinha nas grelhas de rua, acompanhadas de pão
- Circulação: o metro pára a horas normais — depois da meia-noite vai-se a pé. Planear com antecedência.
- Segurança: o festival é genuinamente festivo e geralmente seguro, mas é uma multidão enorme. Manter os sacos próximos, estar atento ao que está à volta, ficar com as pessoas que conhece.
- Alojamento: reservar com 3 ou mais meses de antecedência, no mínimo
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